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Como a expectativa de petróleo na Foz do Amazonas já está mudando o Oiapoque: ‘É um bairro atrás do outro’

Vista aérea de uma área de ocupação, com centenas de casas espalhadas por ruas de terra e terrenos desmatados, cercada por extensas áreas de floresta.

Há 35 anos, a paraense Sheila Cals decidiu cruzar o rio Oiapoque, no extremo norte do Brasil, para poder oferecer uma vida melhor aos filhos, na Guiana Francesa, o território francês que faz fronteira com o Amapá.

Mas em Caiena, a capital franco-guianense, a costureira de 69 anos começou a ouvir de amigos há cerca de dois anos que era a hora de voltar ao Brasil — mais especificamente à cidade de Oiapoque (AP).

“Sempre foi meu sonho voltar ao Brasil. E agora ficamos na expectativa de acontecer aqui o que aconteceu na Guiana, no Suriname“, diz Sheila, já em sua nova casa, em Oiapoque.

Ela se refere ao boom econômico com a exploração de petróleo nos países vizinhos, uma esperança presente nos novos e velhos moradores dessa cidade do Amapá de 30 mil habitantes, ligada à capital, Macapá, por quase 600 quilômetros de estrada, 100 deles sem asfalto.

Na ponta mais ao norte do Brasil, Oiapoque é o município mais próximo da chamada bacia da foz do rio Amazonas, na Margem Equatorial, onde a Petrobras acaba de encontrar petróleo em águas profundas, segundo anúncio feito na segunda-feira (17/08).

Autorizada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) em outubro após anos de expectativa e de embates dentro do próprio governo Lula sobre o impacto ambiental do projeto, a Petrobras segue com pesquisas para saber se a exploração de petróleo ali, a 175 quilômetros da costa, é economicamente viável.

Imagem aérea dividida em dois momentos mostra a expansão de uma ocupação: à esquerda, uma área com casas e ruas de terra recém-aberta em meio à floresta; à direita, o mesmo local já mais ocupado, com maior número de construções e áreas desmatadas.

Após ter encontrado o petróleo, a estatal prevê novas perfurações para entender o potencial da região. Chambriard afirmou que estão previstos três novos poços na mesma área, além de outros cinco em áreas adjacentes.

Em 6 de janeiro, a Petrobras havia interrompido a perfuração do poço após identificar vazamento de um fluido usado para limpar e lubrificar a broca que auxiliava na perfuração.

Caso a exploração de petróleo se concretize, cidades litorâneas do Pará e Amapá, especialmente Oiapoque, devem receber os royalties, em um fluxo de dinheiro inédito ali.

Os recursos são uma compensação financeira paga pelas empresas produtoras, no caso a Petrobras, como remuneração pela exploração de recursos não renováveis. A cidade que mais recebe royalties no Brasil, Maricá (RJ), arrecadou R$ 2,6 bilhões em 2025.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que a exploração da Margem Equatorial pode elevar o PIB do Amapá em até 61,2%, além de gerar cerca de 54 mil empregos diretos e indiretos.

O Amapá é hoje o Estado com o terceiro menor PIB do Brasil, à frente apenas de Acre e Roraima.

A Prefeitura de Oiapoque, cujo comando está nas mãos de Delegado Inácio (PDT), eleito em abril de 2026 em uma eleição suplementar convocada após a cassação de Breno Almeida (PP) por compra de votos, não contabiliza os novos moradores que estão chegando. Mas alguns dados dão algumas pistas.

Para 2026, havia 807 novos estudantes interessados em vagas nas escolas municipais, informou em ofício à BBC News Brasil a Secretaria de Educação do Oiapoque. O número representa um acréscimo de 16% de alunos na rede municipal, que tinha cerca de 5 mil alunos.

Segundo a secretaria, aberturas de anexos e utilização de estruturas estão sendo feitas para atender “a chegada massiva de moradores em busca de emprego, impulsionada pela expectativa de extração de petróleo na margem equatorial”.

Já a secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação informou verificar “um índice de crescimento considerável nos últimos anos”, apesar de não ter uma contagem.

Somente em 2025, foram emitidos cerca de 800 alvarás de construções e transferências, “reflexo direto do investimento em obras comerciais e residenciais” nos últimos anos.

O geógrafo Edenilson Moura, professor na Universidade Federal do Amapá (Unifap), no campus Binacional de Oiapoque, tem fotografado as novas construções pelas ruas justamente para documentar as transformações na cidade.

“A cidade está cheia de edificações sendo construídas. Não são prédios muito altos, como em outros padrões de verticalização de distintas realidades urbanas brasileiras, mas hoje já percebo edifícios de quatro, cinco pavimentos sendo erguidos. Isso por si só já demonstra um novo modelo de organização do espaço urbano de Oiapoque”, diz Moura.

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