Pular para o conteudo

Por que latino-americanos (incluindo brasileiros) preferem a influência da China à dos EUA

Em recado aos EUA, Xi Jinping diz a Lula que China apoia Brasil contra  'interferência externa' - ICL Notícias

A pesquisa Latinobarómetro 2026, realizada em 17 países da América Latina, revelou que, pela primeira vez, a China superou os Estados Unidos em termos de “influência positiva” na região na visão dos latino-americanos. De acordo com o levantamento, nos últimos seis anos, a percepção em relação à influência positiva de Pequim passou de 48% para 65%. No mesmo período, essa influência de Washington encolheu de 60% para 57%. Outros números da pesquisa Latinobarómetro, que tem sede em Santiago, no Chile, mostram ainda que a opinião negativa em relação aos Estados Unidos na América Latina passou de 28% para 37% entre 2020 e 2026. Já a da China caiu de 37% para 26% no mesmo período.

Motivos

Em entrevista ao Brasil 247, a diretora da Latinobarómetro, Marta Lagos, disse que o retorno de Donald Trump à Casa Branca, em janeiro de 2025, com o olhar (e intervenções) na América Latina, tem forte impacto nesta visão dos latino-americanos. Ou seja, apesar das recentes associações dos governos da América Latina de extrema-direita e da direita tradicional com Trump e da união deles no chamado ‘Escudo das Américas’, a percepção da população é outra. “Uma coisa são as decisões dos governos em relação a Trump e a outra a percepção das pessoas, das populações”, disse Lagos, falando de Santiago. Desde o retorno de Trump à Presidência dos Estados Unidos, em 2025, vários países latino-americanos elegeram presidentes conservadores. Foram os casos do Equador, da Bolívia, do Peru, do Chile, da Colômbia, da Costa Rica e de Honduras, além da Argentina, que elegeu Milei em 2023.

“Escudo limitado”

Marta Lagos não acredita que a união de presidentes da direita e da extrema-direita no chamado ‘Escudo das Américas’ resultará numa “união” regional. Para ela, o diálogo e os acordos não são simples entre líderes da nossa região. E existe ainda a dúvida sobre o que acontecerá nesta relação dos países da América Latina com o governo Trump, caso seu partido, o Partido Republicano, perca as eleições legislativas de novembro, como apontam pesquisas de opinião. A iniciativa de Trump ‘Escudo das Américas’ prevê, segundo analistas, o uso militar no combate ao crime, além da exploração de recursos naturais que podem beneficiar os Estados Unidos.

China

Na opinião de Marta Lagos, os Estados Unidos deixaram um “vazio” na América Latina a partir do atentado às Torres Gêmeas, em 2001, quando os governos norte-americanos colocaram o foco no Oriente Médio.

“Desde então, a China cresceu muito nos países latino-americanos. Seus produtos, que antes eram vistos como de má qualidade, já não são mais. Há investimentos importantíssimos como o Porto de Chancay, no Peru, carros chineses, tecnologia de ponta. Enfim, a China é hoje muito importante na região e as populações percebem, sabem disso”, afirmou. Entre os 17 países onde a pesquisa foi realizada, somente a Costa Rica e a República Dominicana mantêm Washington à frente de Pequim em termos de “influência positiva”.

Principal parceiro comercial

O país asiático é hoje o principal parceiro comercial da grande maioria dos países latino-americanos. Uma das poucas exceções é o Paraguai, vizinho do Brasil, que tem relação tradicional com Taiwan. Os investimentos chineses na região incluem automóveis, infraestrutura, mineração, como lítio e cobre, transição energética, entre outros. O Porto de Chancay é uma verdadeira cidade, com tecnologia avançadíssima, com objetivo de ligar as exportações da América do Sul ao território chinês, através do Oceano Pacífico.

“Escudo das Américas não caiu bem”

A trajetória dos Estados Unidos de interferências na América Latina durante os períodos de ditaduras militares e agora, com a iniciativa do Escudo das Américas, “ficam na memória e não caem bem” nas populações da nossa região, disse Lagos. No levantamento da Latinobarómetro, observa-se que os Estados Unidos continuam ‘populares’, mas com a menor opinião positiva de tempos atrás, especialmente depois do retorno de Trump ao poder.

“Trump chegou tarde”

Na visão da especialista, Trump pode ter chegado “tarde” com suas ações intensas na região porque a China já é fortemente presente na América Latina. “As políticas chinesas são feitas com paciência e no longo prazo. Essa é a realidade”, disse. “Além disso, é muito difícil competir com os produtos chineses. Não só na América Latina, mas na Europa e em outras partes do planeta”.

Sul Global

A economia chinesa é a segunda maior do mundo, depois da dos Estados Unidos, e o país asiático é fundamental na articulação do Sul Global, que reúne os países em desenvolvimento, como os que formam o BRICS (em tempo: não deixem de assistir à entrevista da ex-presidenta Dilma Rousseff, presidente do ‘Banco do BRICS’). A América Latina sozinha tem 600 milhões de habitantes e é um ator importante no tabuleiro global. Parte do Sul Global, junto com a Ásia e a África, indica, atualmente, uma nova percepção sobre a China em termos gerais, como indica Latinobarómetro. “Estamos como no fim da Segunda Guerra Mundial, com o mundo se reorganizando. Esta reorganização surgiu depois da pandemia, do retorno de Trump e das mudanças tecnológicas. Estamos num período de reagrupamento”, observou nossa entrevistada.

Conversa

0 comentarios

Participe da discussao com a mesma linguagem visual do tema e deixe sua opiniao sobre este conteudo.

Deixe um comentario

Seu email nao sera publicado. Campos obrigatorios estao marcados.

submit submit